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Mineradora tem aval para retirar 3,6 milhões de litros de água no Jequitinhonha e se automonitorar

quinta-feira, 18 de setembro de 2025

/ Hiago

 


Nas redes sociais, a mineradora canadense Sigma Lithium se descreve como uma indústria de “lítio verde”. Instalada no Vale do Jequitinhonha, uma das regiões mais áridas de Minas Gerais, a empresa chega a afirmar em algumas publicações que consome “apenas 30 metros cúbicos por hora”, o equivalente a 720 mil litros por dia. Segundo ela, isso seria 13 vezes menos do que demanda uma plantação de banana irrigada. Na prática, porém, para manter as atividades da unidade, a indústria consome mais do que o dobro do que foi divulgado na internet. Por dia, ela retira 1,9 milhão de litros no rio Jequitinhonha, que corre nos municípios de Araçuaí e Itinga, onde ela atua. O consumo de água tem incomodado a população local que convive com a seca. Movimentos sociais chamam o cenário de “apartheid hídrico” e denunciam falta de fiscalização. A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) admite não acompanhar o consumo de água pela Sigma e explica que a mineradora ainda pode enviar relatório de automonitoramento em janeiro de 2026. 

Entre 2020 e 2024, a região do Jequitinhonha somou 302 decretos de situação de emergência devido à seca ou estiagem, o que colocou a região como a segunda mais impactada de Minas no balanço divulgado pela Coordenadoria Estadual de Defesa Civil de Minas Gerais (Cedec-MG). Diante deste cenário, o evento Clímax 2025 - 2º Encontro de Cultura, Comunicação e Clima, realizado em Diamantina em julho deste ano, formou uma coalizão entre movimentos sociais, pesquisadores e autoridades que buscam “frear” o avanço da mineração predatória no território.

Ribeirão pode sofrer “impactos graves”, diz MPF

No início de setembro deste ano o Ministério Público Federal (MPF) encaminhou uma recomendação à Agência Nacional de Mineração (ANM) pedindo a suspensão e a revisão das autorizações de pesquisa e extração de lítio na região do Jequitinhonha. Entre os problemas constatados pelo órgão está a ausência da consulta às comunidades indígenas, quilombolas e tradicionais da região, que deveriam ter sido ouvidas antes da liberação dos projetos. Para a elaboração da recomendação, o órgão de Justiça fez uma série de relatórios, entre eles, um que aponta que a “ampliação da mineração aumentará a pressão sobre a infraestrutura e os recursos hídricos da região”, podendo causar impactos graves no nível do corpo d’água.

“Laudo técnico elaborado pelo MPF apontou, ainda, deficiências no Estudo de Impacto Ambiental (EIA) apresentado pela Sigma Mineração, em 2021, em relação aos impactos nos recursos hídricos pela exploração de minério na região de Araçuaí e Itinga. A localização das duas cavas – locais de retirada de material para explorar o minério – levanta sérias preocupações quanto à interferência no ribeirão Piauí, em especial pelo rebaixamento do nível d’água para a lavra”, divulgou o MPF.

Além de ter sido “cercado” pelas duas cavas da Sigma, o ribeirão Piauí também está localizado em alguns trechos a menos de 100 metros de onde a empresa ergue suas pilhas de rejeitos. Quando O TEMPO esteve na comunidade de Piauí Poços Dantas, não era raro presenciar pedras rolando do alto da pilha e indo parar dentro do leito do corpo d’água. O laudo elaborado pela perícia técnica apontou, conforme o MPF, que a situação é particularmente crítica, uma vez que o ribeirão constitui a principal fonte de abastecimento de água para os moradores da área e comunidades rurais no entorno, “especialmente em períodos de estiagem”.  

“A exploração do lítio não pode repetir um ciclo histórico de exploração predatória e exclusão social no Vale do Jequitinhonha. É dever do Estado garantir o direito à consulta prévia, livre e informada, para que as comunidades possam decidir sobre o futuro de seus territórios e modos de vida”, disse o procurador da República Helder Magno da Silva, autor da recomendação.

Ampliação pode devastar área do tamanho de 480 “Mineirões”

Os impactos da mineradora canadense em seu curto período de atuação na região não se restringem à utilização da água. Durante seu segundo ano de operação, em 2024, a Sigma Lithium extraiu, conforme nota enviada pela própria empresa, 1,5 milhão de toneladas de minério, o que resultou em uma produção de 270 mil toneladas de concentrado de óxido de lítio. Essa enorme diferença entre o que é retirado do chão e o que é efetivamente comercializado pela empresa, resulta em gigantescas pilhas do que é chamado de “estéril”. 

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